
O ano está chegando ao fim. Percebi ontem ao ver um trono vermelho ainda vago esperando pela bunda de alguém. Seria a Diuma? Não! O Papai Noel. “As criança tudo correno, pulano, aproveitano que o Noel ainda não assumiu pra tirar uma fotinha no celulá. Que beleza. “
O que me fez lembrar da reunião de pais e professores que tenho na quarta-feira. Com uma criança do nível fundamental 2, já estou vacinada e irritada com o que me espera, portanto desenvolvi ao longo de toda uma educação infantil, fundamental 1 e parte do fundamental 2, técnicas de sobrevivência às reuniões na escola.
Pirmeiramente vem o bilhete na agenda. O dia da reunião é sempre escolhido a dedo, ou é num sábado 11 da manha, que , diferentemente do feriado dos finados sempre faz sol, ou na quarta-feira às 6 da tarde. Hora em que a firma está dando adeus aos funcionários administrativos que provavelmente chegarão meia hora atrasados em suas reuniões de pais e a gente que trabalha na criação tem que se jogar pelo basculante pra se livrar dos olhares de “já vai cedo engraçadinha”.
Depois de muito stress pra chegar na porra da reunião, você abre a porta da salinha, todo mundo te olha, você dá aquele oi, senta numa cadeira onde cabe meia bunda e ouve a professora falando entre os dentes sobre a proposta pedagógica, o método adotado, bla bla bla.
A fase dois da porra da reunião é quando alguns pais animados resolvem contar bizarrices de seus filhos, como se cada detalhe fosse interessar e emocionar a todos.
- Tia Fri, o Pedro Henrique chegou em casa outro dia e mostrou um trabalho feito no espaço Artes Criativas e Mentes Abertas Para o Universo Cósmico, a ACMAPUC, e eu gostaria de manifestar publicamente meu contentamento por ver que o Pedrinho está utilizando materiais que seriam descartados na natureza e abordando temas de relevância mundial, talvez, terrestre, porque nós todos, a escola e nós os pais somos responsáveis pela consciência deles que serão o futuro do planeta. Então aquela bola de garrafa pet, cheia de sementes, pintada nas cores do ralouín, pendurada em forma de móbile, revisitando a visita ao museu do bimeste passado, é o que faz a diferença.
Aí, vira a moça do canto de dedo levantado:
-Aqui, eu queria dizer que eu sou da igreja e não é porque a Fernanda está numa escola particular que ela tem que conviver com essas comemorações que na nossa religião não são aceitas. A Fernandinha não tinha ralouín na outra escola e ficou muito perturbada quando ela se vestiu de fadinha e a amiga Carol, que vive lá em casa apareceu de vampira. A escola devia proibir essas festas americanas que cultivam imagens do mal.
-Bom, já que é assim, eu queria dizer que meu filho perdeu a mãe ano passado e tá no psicólogo porque teve que passar duas semanas colando uma capa de livro de feltro e teve que participar do mural gigante da escola colando os objetos que a mãe mais gosta. O garoto ficou meio afeminado e a escola tem que acabar com esse dia das mães porque ele não tem mãe, desculpa, mas eu queria falar.
-O Tia Fri, a Ana Manuella, está tocando Asa Branca perfeita na flauta e com a Joana Antônia elas fazem a Asa Branca em duas vozes e eu sugiro que elas se apresentem no final do ano pra escola toda ver, porque é uma coisa linda gente.
A Tia Fri se despede e a mãe mais chata de todas fecha a porta e diz em tom de cumplicidade.
-Pessoal, eu descobri que a Tia fri ficou noiva e vai casar em fevereiro e que gostaria de passar uma lista pra cada um dar um valorzinho em dinheiro, a partir de 80 reais pra comprarmos um presentinho e cada um que coloaborar vai ter direito de assinar um cartãozinho que é esse aqui, todo prata, com detalhes em strass e essência de patchouli. Afinal de contas ela é responsável pela formação de nossos filhos e fez o esforço de ensinar durante o ao inteirinho! Quem não quiser participar, ou não tiver poder aquisitivo, tudo bem, é só não assinar o cartão que será entregue e lido no dia da festa de fim de ano, quando entregaremos o presentinho, com o nome de cada um!!!
Sempre tem uma mãe que fala o que a gente quer (deixa o serviço sujo com ela):
-Porra, mas a a turma tem 25 alunos. Você quer dar um vestido da Adriana Barra pra Tia Fri? Tá louca?
O que você deve levar, pensar, mastigar, etc. para enfrentar esse tipo de agressão.
@ Mantenha um alfinete no bolso. Assim você poderá se espetar sempre que sentir sono.
@ Leve seu iPod, o menorzinho, enfie nos ouvidos e coloque um James Brown bem alto, mas bem alto mesmo e veja como as coisas ficam engraçadas, divertidas.
@Faça pequenos exercícios circulares no pescoço, em todos os sentidos. Aproveite para flexionar e desflexionar os pés dentro dos sapatos, contando 370 vezes para cada pé. Depois, tire os sapatos, estique bem os dedos e massageie suas pernas (aproveite para depilá-las, ninguém vai reparar…);
@ Cheque sua higiene pessoal a nível de sovaco e levante o braço, fazendo menção de querer perguntar algo, só para dar a pinta de que está SUPER interessada no assunto. Após ser chamada, diga que a dúvida já está desfeita, obrigada!
@Pense DE-TA-LHA-DA-MEN-TE e DE-MO-RA-DA-MEN-TE nos detalhes do corpo do diretor da escola. Imagine-o nu, transando com uma das professorinhas;
@ Pense como seria a arquitetura da cantina da escola – caso a escola tenha uma cantina e caso a cantina tenha alguma arquitetura…
@ Conte até 16.789.214 de trás pra diante, iniciando com os números primos, pulando os números ímpares, multiplicando-os pelo seu menor coeficiente fracionário e desprezando as dízimas periódicas;
@ Aproveite esse tempo de ócio para decorar todas as promessas da Diuma. Isso poderá ser útil num futuro bem próximo.
@Prenda a respiração e compute o tempo que você consegue ficar sem ar.
@Exercite sua memória. Tente lembrar qual foi sua última boneca, sua primeira merenda, seu professor mais gostoso, sua primeira menstruação, o que você fez com a sua última chupeta e em quem você fez o último boquete…
@ Exercite ainda mais sua memória e tente relembrar quando foi seu último orgasmo;
@ E com quem foi (você ainda se lembra?)
@Pense em como você ficaria com o cabelo (mais) tingido. E com uns 350 gramas de silicone em cada peito.
@ Pense como seria sua vida caso você tivesse sido uma aluna melhor;
@Ou se não fosse mãe…
@Leve um brinquedinho tipo borboleta daquelas que grudam no clitóris da gente e invente uma palavra que acione o bichinho.Por exemplo: cada vez que a “tia” disser a palavra “oportuzinar” a borboleta vibra.
Bem essas são algumas dicas para você poder entrar e sair da reunião, sem parecer uma mãe ausente ou uma chata que fica falando das proezas de seu pimpolho. E pode ter certeza de que todas aquelas mães que parecem pessoas centradas equilibradas e contidas leram as dicas aqui contidas.
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