Num certo mês de janeiro…
Ainda lembro aquele tempo em que a gente ia à praia, bem aqui em frente de casa, e depois tirava o sal no piscinão da pérgula do Copa. Eu quedava na minha chaise sombreada e dispensava o uso de filtro solar, que, então, era generosamente substituído pelo meu Rayto de Sol que trazia de minhas idas a Buenos Aires, quando batia pernas horas e horas pela Caje Florida. A pele ficava lustrosa, brilhava mesmo. E eu ali semideitada, semi-sentada, munida de um bom turbante, estalava os dedos para chamar o Régis, que trazia na bandeja de prata mais um daiquiri.
Bons tempos, diferentes de hoje, quando a gente se vê encomendando carregamentos de potinhos antimofo para colocar um em cada prateleira da casa.
Sendo assim, obrigadas a conviver com o novo clima que assola Copacabana, o bairro da cidade cinza, nublada e de areias permanentemente úmidas, vamos dar a volta por cima, todas nós, subindo na galocha e lidando com a realidade do aquecimento global e suas implicações em nosso day by day.
LAVANDERIA
Eu é que não sabia como a coisa se operava. Firmina, minha criada gorda que mamãe trouxe de Portugal, todas as manhãs invade meu closet e leva consigo uma trouxa de roupas usadas, não sujas, para a lavanderia do apartamento. Antigamente elas voltavam secas e passadas e Firmina ainda as dobrava com capricho e guardava por ordem alfabética em minhas prateleiras e gavetas com frente de vidro. Hoje, para minha surpresa, faltou uma anágua de cetim rosa-bebê.
Protestei.
Firmina me expôs a situação. As roupas acumuladas na lavanderia entram nas máquinas e tanques de lavar roupas, são centrifugadas umas e torcidas outras. Há, ainda, aquelas que não toleram a torção e que pedem baixa umidade do ar para secar au naturel.
Desde 2006 que isso não acontece. Não vamos perder o rebolado por causa disso. São varais e mais varais com roupas úmidas que vão ficando com aquele cheiro, um misto de Comfort com bolor.
Amiga baranga, estamos em janeiro, o clima é “Blade Runner”, porém, deveríamos ser modernas e práticas. Compre uma boa secadora, mande sua criada bater perna num 5 à séc, mas nada de vestir calça jeans com o fundilho molhado. Isso, não. Revolte-se, mesmo que isso lhe custe um pouco de encolhimento, mas faz-se necessária uma reforma na área de “selviço”.
LAZER
Fim de semana no campo. Quão prazeroso é um final de semana dez graus abaixo dos meus 37 costumeiros! Entrávamos no Opala de papai e a família partia rumo a Petrópolis, mais exatamente Itaipava, reduto pouco freqüentado nos anos 70 que hoje exporta uma renomada e homônima cerveja. Eu só tomo as pretas.
Clima ameno, chuvas à tardinha e sol pra subir e descer as malharias do centro. Depois um chá no D’Angelo e a volta a Itaipava, onde nos perdíamos mirando as silhuetas das montanhas.
Isso não nos pertence mais, como ouvi falar uma pessoa no televisor.
Malas prontas, lá fomos nós, eu e meus amigos Rony e Tony, com uma leva de DVDs e CDs, ultrapassar toda uma Linha Vermelha para finalmente curtir o nosso pós-réveillon na serra. Guias de restaurante na mão, reservamos uma mesa, uma tarde toda na Locanda, atendidos pessoalmente por meu quase irmão, Dânio.
Depois de três dias de chuva ininterrupta, fomos ao João Flora, que fica logo ali, em Pedro do Rio, e adquirimos três botinas Zebu. Elas são rústicas, mas atendem perfeitamente o nosso objetivo, com um certo charme country. Depois de nos lambuzarmos com as iguarias de Dânio e sairmos altinhos os três, dos vinhos que absorvemos, acompanhados por um enorme ombrelone, voltamos ao veículo que nos levou de volta à origem.
Um dia, depois de termos a chuva a nos brindar todas as manhãs, dias e noites, resolvemos ignorar o detalhe meteorológico e partir para fazer o que quiséssemos com chuva e tudo.
Esta é a dica apocalíptica: uma vez que o aquecimento global está aí e vivemos desde que o ano começou debaixo de chuva, não devemos nos intimidar diante da atual situação do clima.
Botei um bom duas-peças, Rony e Tony, seus caleçons, e fomos dar um tchibum na cachoeira perto do nosso chalé. Duas-peças, toalha no pescoço e as botinas Zebu, ficamos engraçadinhos.
Lá fomos nós, rio acima, o volume de água era grande. Avistamos um aglomerado logo adiante, com troncos, mato e algumas pedras. Pensei ser um sambaqui, mas que nada.
Enquanto Rony e Tony cheiravam flores exóticas e molhadas, ouvimos um estrondo da natureza. Depois de corrermos e nos pendurarmos os três em cima de um tronco atravessado, sentimos os respingos em nossos traseiros e pudemos avistar uma cama de solteiro descendo rio abaixo, junto com a enxurrada. Cabeça d’água, ficamos sabendo na venda onde tomamos, cada um, um trago de pinga pra desidratar pelo menos um pouco.
Voltamos caminhando e tivemos ainda que lidar com as barreiras caídas em nosso caminho de casa. Lá ficamos até ontem, quando meu vizinho, sobrinho de um certo ex-presidente, nos emprestou gentilmente seu helicóptero, que parou ali mesmo na Lagoa, de onde eu voltei para o Chopin, e Tony e Rony para a Dias Ferreira, onde têm um bistrô.
Continuo determinada a ignorar as previsões, e hoje me preparo para um piquenique no Parque da Cidade. Levo uma capa, minha botina Zebu, que virou coqueluche entre meus vizinhos do Chopin, e uma sombrinha.

Ele é acelerado, está sempre indo. O Homem-Pac é parrudo, um bofe-pacote, volumoso. A gente olha e até imagina que alguma coisa boa vai sair dali, mas nunca se sabe.
Titia está animadíssima com seu noivo. Ele chega no almoço de domingo preparado, com sua câmera digital, passa uma água no penico do vovô, faz bilu-bilu na filha da empregada, uma loucura a simpatia do Homem-bolsa família.
Muito bom para aquelas extremamente duras. Aquela amiga sua que não tem nem o que comer, que zerou os cartões de crédito todinhos, que está toda endividada, tem nome em cartório, cheque devolvido, mas é supergente – isso, aquela pra qual você parou de ligar. Você anda meio afastada dessa amiga, mas se conhecer o Homem-fome zero, manda o infeliz pra ela que ele vai garantir o arroz com feijão e a farinha de mandioca. A mandioca às vezes compensa. Como ele é muito simplório, costuma não ter noção do que tem de bom e faz pouco estardalhaço. Ele geralmente fala errado, mas fica feliz com pouco. A cada palavrinha nova ele vibra. Na cama ele fica excitado ouvindo palavras sujas. Xingue-o de “laico”, “sinequanon”. Ele pira.
Ele chega de nariz em pé, fingindo ser humilde, mas na verdade se acha um ser superior. Se você curte aquele tipo de homem que quer porque quer elevar o seu espírito, esse é o cara. O Homem-luz para todas vai te levar pra aula de ioga, meditação transcendental e vai te botar pra ferver manteiga sem sal. Tudo isso em nome da sua elevação, porque o que ele acha, mesmo, é que ninguém chega a seus próprios pés, que, aliás, são divinos. Ele se acha um ser iluminado e até arrisca algumas previsões. Muita preocupação com o interior deixa o exterior a desejar. Ele não valoriza a carne, e você há de convir que a carne é necessária, e com nervo. O Homem-luz para todas também pode ser traiçoeiro, cortando o fornecimento sem dó nem piedade.