FUI CONCRETADA NO CENTRO DA CIDADE

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Esse texto vem diretamente do século passado, quando o site Banheiro Feminino tinha uma coluna, paródia do Eu, leitora da Revista Marie Claire, que se chamava Eu, Usuária.
O pessoal mandava suas histórias e nós publicávamos.
Lá vai, atendendo a um pedido especial de um freguês do Banheiro Feminino.
Pra você, Daniel!

Sexta-feira, 16:00h, ia eu, lépida e faceira, do alto do meu 1,75m de altura, com meu terninho básico (novinho em folha), carregada de processos, até a Justiça Federal, resolvendo minha vidinha, pensando em como ganhar “dindim”, fazendo mil planos para o final de semana e muito apressada porque tinha que pegar minha mãe na rodoviárias às 17:00h.

Atravessei a rua … desviei dos entulhos da construção que estavam na calçada e, de repente …. ploft!!! Deus do céu!!! Caiu alguma coisa na minha cabeça!!! Molengo, com alguns pedaços sólidos, cinza …. Meus Deus, concreto!!! Não acreditei….Imaginem o que é uma criatura, em pleno centro da cidade, de terninho, salto alto, cabelo escovadinho, óculos escuros e coberta de concreto, dos pés a cabeça, literalmente… é isso, recebi uma caixa de concreto todinha na cabeça… o pedreiro deixou “escapar”, do segundo andar, na hora que virou para concretar o piso!!! Deixou escapar tudo em cima da minha cabecinha loira e lisa… Eu posso????

Na indignação, joguei tudo o que tinha tinha nas mãos no chão, inclusive o precioso processo, que me daria algum dimdim e, com meu saltinho dez, subi escada acima (escadinha, essas de madeira, que dão acesso a construção, sente o início do vexame!!).
Todos os predreiros se esconderam atrás das vigas, e eu, do alto da minha coragem, perguntei:

– “não tem nenhum bunda-mole que vai me prestar uma satisfação????? Não existe nenhum homem de verdade que pretenda arcar com as conseqüências desta palhaçada???”

De repente foram surgindo, aos poucos, uns 15 peões da construção de civil … e eu comecei a achar que tinha feito bobagem em ter subido naquela porcaria. Comecei, aliás, a achar que tinha feito bobagem ao ter levantado da cama de manhã….

Um colega advogado, que vinha passando, assistiu a cena e foi me salvar dos trogloditas. Mas, quando desci: o mico!!! A rua estava engarrafada, para ver o que tinha acontecido, tinha juntado muita gente (uns indignados com minha situação, outros mortos de rir – tudo bem, tinham razão!!!), os serventuários da Justiça Federal, que eu via praticamente todos os dias, ali amontoados para ver o que tinha havido com a “doutora” ….. a maioria não conseguindo conter o riso. Eu roxa de ódio!!!

Só quando me deparei com isso tudo é que me dei conta do meu estado… meu cabelo concretado, meu terninho concretado, minha bolsinha concretada, meu celular (1 semana de uso) concretado, minhas unhas concretadas, os processo concretados … se tivesse ficado parada ali, virava a irmãzinha tupiniquim da Estátua da Liberdade…. Que derrota!!! Só pensava: Deus me dissolva, Deus me dissolva, Deus…!!!

– “A placa? Cadê a placa com o registro do engenheiro responsável por esta birosca???”

Achei o registro e o telefone … liguei (com o telefone de alguém que estava ali, porque o meu faleceu em decorrência do acidente) …

– “não está”…
– me passa o celular dele!,
– “não tenho autorização”…
– minha “flor”, me passa o celular dele, porque senão tu vais te meter em uma encrenca sem tamanho!!!

A secretária me deu o número … liguei para a figura … contei a história, aos GRITOS (meu colega adv, a essas horas, já estava colhendo nome e endereço das testemunhas, heheheh), o dito cujo começou a dizer que essas coisas acontenciam … que agora ele não poderia me dar atenção porque estava em uma cidade vizinha ….

– “Acontencem? Acontencem o caramba!!! E tu, por mim, poderias estar no inferno!!! Anota meu endereço aí e dá um jeito de segunda feira na primeira hora, estara lá, porque tiveste o azar de isto ter “acontecido”, com uma advogada!!! Adivinha se não vou te acionar!!!!”

Só deu tempo de ouvir ele dizendo “puta merda, que c….” e desliguei o telefone. Daí chegou uma equipe de televisão, querendo filmar euzinha, toda concreta para toda a cidade ver no noticiário noturno… bem capaz que eu iria deixar…. era só o que me faltava mesmo!!. Um mico gigantesco e ainda terem a audácia de filmar e mostrar para a cidade toda … É ruim, hein…. depois ainda iam dizer que é porque eu sou loira.

Próximo passo? Fazer a ocorrência no DP. Dois quarteirões de onde eu estava … daquele jeito … Até tentei pegar um táxi mas, é claro, que nenhum parou. Não sei o porquê, eu estava tão limpinha!!! Fui a pé, aguentando as risadinhas na rua, mas fui, firme e forte.. Entrei no DP (que já tinha entrado tantas outras vezes)… quando o povo que trabalhava lá me viu, sumiram todos e eu só ouvia as gargalhadas numa salinha… ficou só o escrevente… Fiz o BO e voltei para, casa a pé mesmo…. Afinal, vexame, vexame e meio..

Coitadinha é da minha mãe, que estas alturas estava na frente da minha casa (cansou de me esperar na rodô), na rua, tentando falar comigo pelo meu celular falecido. Eu esqueci dela completamente!!!

Na segunda feira o engenheiro chegou no meu escritório antes de mim, de carro importado zerado e rolex no pulso. Cobrei tudo, tintim, por tintim, a roupa, a bolsa (que já estava meio baleada mesmo!!), sapato, celular, sutiã (sim, ele tb), minha tarde de trabalho, os óculos, a pasta, pq tudo isso ficou simplesmente IMPRESTÁVEL. Cobrei até o mico que eu passei (“danos morais, oras bolas…), o tratamento que tive que usuaria15fazer durante meses no meu cabelo (alguma substância da massa do concreto reagiu com a tintura do meu cabelo e ele, além de ressecadérrimo, ficou verdinho, verdinho…)… Superfaturei todos os cálculos!!!

O cara pagou (foi sensato, o cidadão) e eu consegui o dinheiro que faltava para cobrar meu carro zerinho. Pensando bem, até nem foi tão ruim assim o que aconteceu, né??? No momento, tô precisando é comprar um apto … alguém tem alguma sugestão???

Luciana

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